Quando a humanidade aprendeu a destilar magia como quem ordenha vacas, inaugurava-se a Era dos Homens e as entidades primitivas, incapazes de se adaptar ao novo mundo, ficaram num passado distante e tornaram-se lenda, mito e folclore.

Em algum momento do primeiro século da História Posterior, relatos começaram a circular sobre grupos humanos nascidos com um chamado em seus corações, um chamado para a iluminação, para a libertação. Estes grupos saltaram para o outro lado do mapa através do mar e desapareceram nas montanhas de fogo e gelo do Leste distante.
Eram pessoas de fisionomia incomum, cobertas de escamas e olhos fendidos, ainda que humanas em tudo, de corpo comprido, mas não como os dos terríveis gigantes. E havia algo mais discreto, mas não menos desviante, nessas criaturas. Alguma coisa dentro daquelas pessoas era, também, muito diferente.
Os séculos foram passando e poucos eram os que subiam as montanhas do Leste e nenhuns os que desciam. Muitas histórias circulavam entre as águas que cercavam as bases de cada montanha, histórias sobre homens cuspidores de fogo e poderosos feiticeiros escamados, histórias sobre dragões, guardiões do céu, que desciam para acasalar com damas e elevar heróis.
Mas outro tipo de criatura desceu daquelas montanhas, guiado por um deus poderoso, mas invisível, que carregava uma luz em busca de outras almas aprisionadas que buscavam libertação, que buscavam ascensão. Os dragões ainda viviam dentro de homens, de poucos homens e cada veio de sangue era uma parte do corpo serpentinoso do deus antigo que habitava aquele corpo de barro, aquela prisão.
E esta prisão fez-se eterna, acompanhando o espírito trancafiado após cada ciclo de morte e renascimento. Apenas através da iluminação, o dragão tornaria a voar de novo.
Dizem que quanto mais draconesca a sua encarnação, mais próxima sua alma está de romper os grilhões do mundo. O dragão deixará de mordiscar a própria cauda e irá alçar vôo novamente. Este devorará a descendência do homem e deste sua descendência somente irá ferir-lhe a cauda, mas nunca as asas, nunca o sopro e nunca o pescoço.