A DEUSA AFOGADA

[…]

Tomara, o Pai, as duas para si.

Arrancada do útero da Mãe.

Arrastada pelos pulsos, fora tomada Tua inocência pela violência do Pai, pela lascívia do Pai, pelo Poder do Pai. E tentaste, Pequena Deusa, ainda que inutilmente, resistir.

E caíste, destituída de Tua glória e de Teu brilho, a Segunda Filha. Tua queda pesou no Coração da Mãe e Tuas mãos infantis arrastá-las-iam para as profundezas, em colérico desespero, as águas ternas, inundando o Mundo em Tua ira, em grande oceano de sal.

Antes que despencasse, lançada das Alturas pelo Senhor, Teu Pai, Tu que brilhavas para as criaturas das águas abaixo, que admiravam Teu brilho azul, que mais ninguém podia enxergar.

Quando caíste, destituída de Tua glória, estas mesmas criaturas foram arrastadas para as profundezas por Tua cólera, amaldiçoadas, destruídas. Não mais olhariam para cima em busca da beleza azul, mas em busca da luz que Tu, Minha Deusa, também perdeste.

Tu, que passas grande parte de Teu tempo esticando as mãos para o alto, tentando retornar Teu brilho perdido — arrancado de Tuas mãos infantis.

Mas não há retorno.

Quebrada, lamenta e quando Tua tristeza atinge o limite, se transforma em raiva e destruição — sofre o Mundo por inteiro.

O oceano se eleva para alcançar as Alturas e inevitavelmente despenca e afunda embarcações, Teus dedos puxam para baixo as águas doces, as mãos da Primogênita, Tua doce irmã; ondas quebram nas margens com violência, o ódio à Mãe, que falhou em proteger Tua Inocência.