São quatro os honrados ancestrais, Mavar, quem criaram o Mundo habitado pelos elfos marán, sua descendência, que carregam os restos da perfeita Rán dentro de si, protegidos de Kranros por Silmaoril (o Corpo).
Rastrear a origem da cosmogonia élfica é um trabalho extenuante, pois há poucas raízes para nos guiar através deste quadro em branco que é a memória élfica. Muito do que foi encontrado somente resistiu à dissolução do tempo através de registros externos à tradição élfica arcaica — créditos à Más-Gós.
Os Mavar, como são chamados nos registros mais constituintes, que visam preservar a fala élfica, são reverenciados como os primeiros ancestrais que teriam realizado a Criação de um Mundo em que pudesse habitar sua descendência — os marán.
Uma clara hierarquia separa os Mavar entre os mais honrados e os menos honrados. Sob a base da pirâmide, há uma pirâmide invertida em que habitam, também como forças hierarquizadas, os não honrados — demônios, demais forças adversas e afins.
A mais honrada entre os Mavar é Rán, nome de difícil transliteração para as falas contemporâneas por descrever um estado de existência alheio a tudo o que vive e não vive na Matéria — algo que poderia ser precariamente traduzido como “Vida Sem Morte”, que se diferencia da imortalidade por verdadeiramente desconsiderar a Morte, como potência inexistente.
Perceberá que este padrão se repete durante todo o decorrer deste estudo acerca da tradição élfica.
Ao lado de Rán, há Minescens, a Memória Sem Tempo. Os dois compartilham de uma união sagrada que fundamenta as bases de um tempo mítico perfeito anterior ao nascimento do Grande Adversário, Kranros, o Tempo por excelência.
É dito que quando Kranros nasceu, cuspira Oril, o Verbo, e chorou.
Tão poderoso era Teu choro, tão poderoso era Oril Auê, que Kranros cresceu e continuou crescendo e o Mundo tornou-se pequeno demais para abrigá-lo. Seu crescimento desenfreado causou a morte de Rán por esmagamento.
Com a morte de Rán, Minescens afundou em profunda tristeza e ameaçou contra a própria vida.
Os demais Mavar realizaram o que os registros chamam de O Grande Trabalho — laçaram, cada um, o Sol e os Quatro Ventos e os entregaram a Oril, que se sentia demasiado culpado.
Com os Poderes do Mundo, Oril torna-se Oril Emadiká e recita uma canção tão bela que tranquiliza o espírito amedrontado de Kranros que, em sono profundo, torna a encolher, como um bebê novamente, permitindo a Rán se levantar, restabelecendo a Ordem no Mundo.
Inevitavelmente, Rán morre. Talvez, tenha Kranros despertado de seu sono e crescido novamente ou Oril cansado a garganta. A explicação é diversa. Mas consensua-se que, com a definitiva morte de Rán, mil pedaços de seu coração foram lançados a uma colcha de retalhos — o Mundo tal como há de ser o Mundo.
Oril torna-se ou gera Silmaoril, o Corpo, para abrigar os fragmentos de Rán e protegê-los.
Da união entre Oril e Silmaoril, surgem os marán e dos pedaços restantes do coração de Rán, surgem os madoua, os Outros, aqueles expostos ao crescimento desenfreado de Kranros.
Minescens, tal como anteriormente, age contra a própria vida e desaparece.