Picos do Norte como são chamados os campos de batalha da guerra eterna travada entre os Deuses da Comitiva do Céu — todos disputando a posição de Senhor da Tempestade.

É uma terra fria e estéril, onde crescem apenas grandes montanhas que perfuram um céu negro, por vezes rasgado pelo brilho fosco dos raios, intocada pela luz radiante do Sol.

A Escuridão é uma ameaça palpável nesta terra.

E se concentram neste inferno gelado os deuses de cada céu, de cada vento, de cada nuvem e de cada gota de chuva para travar uma batalha que perpetua a morte na Escuridão.

Apenas sobre os Picos do Norte se reúnem os Deuses da Comitiva do Céu e somente sobre os Picos do Norte é travada sua batalha.

Mas as entranhas desta terra, sob as montanhas, serviu de berço para as raças mais antigas da humanidade, os duarani e kouani, e antes deles, os marán — herdeiros de um paraíso perdido onde ainda havia verde.

Cada montanha é um monumento de batalha, esculpido através de muitas eras — dizem que o parto de cada montanha durou doze eternidades e que a mais velha entre as montanhas é Ka, quem deu à luz o primeiro Senhor da Tempestade que, tendo escalado o corpo de Tua mãe, declarou guerra contra os Deuses do Céu pela primeira vez.

OS GIGANTES DO NORTE

Cada montanha é um monumento da guerra e cada gigante é encarnação de um deus ancestral que pereceu em batalha e renasceu no ventre da Terra, abaixo de sua lápide que é a montanha. A escalada é a luta para ascender novamente ao Céu e se tornar, outra vez, Senhor da Tempestade.

Honradas são as montanhas, cristalizam a morte ancestral e tornam-se palco das provações que impõe ao deus que se levanta da fraqueza e da carne do barro para seu renascimento e reintegração à guerra.

Estes são os kouani — os Filhos do Céu.

Se organizam em tribos clânicas onde a unidade é valorizada, ainda que seja incentivado o conflito, pois cada conflito é parte das provações que Ka lança sobre seus filhos de barro. O caminho é trilhado por muitos, mas poucos, senão um, devem alcançar o Céu.

Aquele que é fraco e pequeno demais há de ser sacrificado e lançado abaixo novamente. Sua carne, consumida. Seus restos, esmagados. Seu nome, esquecido.

Apenas às Alturas se voltam os olhos.

E as mesmas Alturas projetam as companheiras leais dos kouani durante sua jornada, as Tempestrozes, as únicas que, sob hipótese alguma, devem ser sacrificadas, desonradas, abandonadas, consumidas, mortas ou prejudicadas da forma que for.

Entretanto, mesmo entre os Picos do Norte, grande parte da população gigante vive na sombra da glória de seus antepassados, menores e mais fracos em tamanho a cada geração. Estes gigantes costumam viver escondidos, nos caminhos entre as montanhas, abatendo bestas enormes para se alimentar, se abrigar e se vestir.

São muito poucos os gigantes kouani que realizam sua escalada espiritual. Estes que o fizeram no passado naturalmente tornam-se figuras respeitadas, embora temidas, que beiram a loucura, xamãs que mediam o contato entre os gigantes e os Espíritos do Mundo, sobretudo aqueles mais cruéis que habitam as Alturas.

Estes xamãs geralmente mantém um vínculo com uma montanha, aquela que enfrentaram no passado, que os serve de âncora Entre Mundos, impedindo — ou adiando — a completa dissolução. A montanha retrata, literalmente, os pés do gigante no chão.

Entre os gigantes mais temerosos, a escalada representa um rompimento para com as convenções e práticas socialmente aceitas e é comum que este ato de ousadia resulte em desgraça para a tribo do futuro xamã.

Um xamã que retorne vivo não é mais um homem, mas um deus renascido entre homens fracos e, em todos os aspectos, menores do que Ele, pois Ele há de ser o Poderoso. Seu dever: relembrar, através do ato e do comportamento, o que é ser kouani.