“No princípio, havia escuridão imutável, até que fez-se luz — a primeira rutura. Com a luz, a sombra. Com o som, o silêncio. Com a expansão, o retorno.”

Diante de um mundo que é vivo, mais antigo, perigoso e desconhecido, a espécie humana volta-se para as forças que regem a realidade em que está imersa em busca de suporte, proteção e conhecimento essenciais para sua sobrevivência. Estas forças, mais antigas, poderosas e assustadoras abraçam estas criaturas tão pequenas.
Estudiosos do assunto apontam que a prática religiosa é a manifestação mais primitiva da prática mágica, que se faz quando, diante da impossibilidade de manipular ativamente uma realidade maior do que o ser, este torna-se piedoso e, através de práticas e rituais, busca se alinhar com o espírito de todas as coisas. O mundo, naturalmente, responde. A deificação do espírito lhe confere agência, função, autoridade e personalidade, consciência de si enquanto algo que existe tanto física quanto espiritualmente. De forma semelhante ao próprio ser humano, o espírito, quando deificado, torna-se ciente de seu ser.
A prática religiosa age de maneira oposta a pneumancia. Através da religião, o indivíduo se submete às forças que envolvem o mundo, a chamada piedade — através da pneumancia, o indivíduo, enquanto mago, controla estas mesmas forças. Fazer magia, ser um mago, é uma prática, um papel, que para alguns é considerada arrogante ou mesmo um ato de hybris¹ — principalmente quando se fala da magia como objeto de estudo, obtenção de poder e do uso desmedido desta força.
No geral, a magia é comumente aceita e faz parte da vida popular em diferentes graus, mas é a religião que encontra um lugar mais especial no coração das pessoas, pois é esta prática que lembra estas pessoas de sua condição, de seus limites, de que o mundo é maior e de que há forças que devem ser respeitadas e, se respeitadas, a prática confere previsibilidade e segurança. Forças, poderes, personalidades com quem se deve cultivar um bom relacionamento.
Cabe lembrar que a tradição religiosa é, também, componente essencial do pneumancia. A pneumancia e o estudo da magia não descartam a religiosidade — muito pelo contrário. Podem servir-lhe de suporte. Um mago consciente, diante das forças que busca compreender e controlar, pode perceber-se enquanto ser humano, enquanto apenas uma pequena parte de um todo muito maior e mais antigo e complexo que, nem sempre, pode ser controlado. Na verdade, na maioria dos templos e demais espaços e círculos religiosos, magos — isto é, usuários de magia — ocupam uma posição deveras importante por representar esta ponte entre o Profano e o Sagrado.
Assim, podemos dividir a “casta” dos magos em duas vertentes, duas escolas de pensamento, duas formas de agir e pensar: há o mago que se submete às forças que estuda e manipula e há o mago que, cometendo o ato de hybris, compreende-se enquanto alguém capaz de se igualar a estas forças e, pasmem, ambos os magos são movidos por uma mesma vontade, uma mesma motivação, um mesmo desejo, que é de compreender o mundo que o cerca para que seja capaz de manter uma relação estável, através da subjugação ou da submissão, e, em específicos casos, através da cooperação, com este mundo.

Detalhe que, na grande maioria dos casos estudados, a religião, se personifica principalmente através da prática e pouco através da crença. Rituais organizados, costumes, dietas, trajes… é como um ritual de magia, mas que ocorre de forma contínua e coletiva, mantendo esta relação de trocas com o Espiritual, com o Mundo, que responde, também, de maneira contínua, por vezes através de manifestações sutis ou não.
Negar a prática religiosa é um ato condenável socialmente. Aquele que nega a prática ou, pior, goza de sua insolência, nega um bom relacionamento com as forças que regem o mundo. Este é visto não somente como um estorvo para a comunidade em que vive, mas como agente mediato ao Mal, pois facilita sua atuação ao deixar de fazer o mínimo dentro de suas capacidades para manter o bem-estar de sua comunidade. Negar é, também, considerado um ato de hybris, pois o indivíduo que se vê neste direito, vê-se não como igual, mas como força maior do que o Sagrado, e assim justifica sua indiferença.
A prática do bem, enquanto ritual coletivo, é um mecanismo de resistência contra o Mal, por vezes referido como Demônio Original, que se manifesta através de tudo aquilo que é prejudicial, através de seus agentes, seus particulares, demônios, que incorporam estes males de maneira teleológica.
Quando a religião deixa de ser praticada, a comunidade é prejudicada, pois torna-se sujeita ao Mal que envolve a realidade que a cerca. Rituais não são mera tradição, mas instrumentos que servem a comunidade, pois conferem função benevolente aos espíritos do Mundo — é manipulação, através da prática coletiva, da realidade; novamente, uma forma primitiva do fazer mágico.
A exemplo, um vulcão ativo é prejudicial, ou seja, é agente mediato ao Mal, que se define por tudo aquilo que prejudica, e como tudo que envolve a realidade Física, há um espírito por trás da montanha de fogo, que é mera manifestação física — o vulcão, enquanto ativo, é agente destrutivo da natureza, logo, é um espírito, um deus, maligno. A prática da religião, através do ritual, pode mudar sua função no Mundo, sua identidade, ou tornar a maldade potencial latente.

Deus — o que se define por Deus? Deus é um objeto de culto. Tudo aquilo que existe, pré-existe enquanto espírito e, novamente, a prática religiosa lhe confere agência e, também, consciência de si. Desta forma, existem muitos deuses — são infinitas as expressões religiosas, logo, são infinitos os deuses.
Estes espíritos, que encontram função na divindade, abraçam o povo que os adotou como seus e existem em função incondicional daquela relação, de tal maneira que toda manifestação da divindade será em favor daquele povo.