Durante a sua existência, o comum é que uma pessoa ponha os pés no Mundo Espiritual duas vezes: anterior e posteriormente à vida. Antes do nascimento, antes do corpo, antes do primeiro choro, a alma de todo indivíduo é concebida, a princípio, no Mundo Espiritual, como uma base, um projeto, uma ideia do que aquela pessoa virá a ser.
É neste momento em que é atribuído ao indivíduo seu rosto, sua individualidade, aquilo que o tornará único no mundo. A primeira parte de sua essência, de seu conceito. Este trabalho é principalmente atribuído a um grande espírito, a Primeira Mãe.
Durante a vida, este indivíduo moldará-se de acordo com as experiências vividas, tendo como base sua pré-concepção espiritual, mas transformando-se continuamente e desenvolvendo-se até o momento de sua morte, quando seu espírito tornará-se completo e não mais capaz de se agarrar ao corpo físico – o corpo se desgasta conforme o espírito amadurece e, por isso, a humanidade envelhece.

Há um consenso entre todos os povos e culturas deste vasto mundo – após a morte, você estará condenado à Procissão Eterna. Vagará sem rumo, em linha reta, por um deserto de cinzas e escuridão. Seu destino esperado há de ser um paraíso, fora do alcance do Demônio Original, a origem de toda a maldade no Mundo.
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Acontece que este é apenas o mito por trás do fenômeno.
Existe, sim, uma procissão realizada por aqueles que já partiram através do Mundo Espiritual. Após a morte, o espírito se desprende do corpo e vaga até que sua energia espiritual retorne ao éter que compõe o potencial de criação do Outro Mundo. Vagam pois, ainda, retém memórias, experiências e sentimentos que os amarram ao Mundo Físico através do Interstício.
O que torna este evento assustador, é que muitos espíritos resistem a reorganização de seu ser. Estes espíritos, enquanto vivos, acreditam que caminharão nesta Procissão até o dia em que chegarão ao Paraíso e morrem acreditando nisso.
Presos à esta crença, mantém-se na Procissão por mais tempo do que deveriam. Enquanto caminham, acumulam sentimentos negativos, em virtude da decepção e da infelicidade quanto ao que imaginam ser a Procissão, e deixam, para trás, um rastro de escuridão que molda a realidade espiritual que os cerca, criando este “Reino da Morte”, esta espécie de purgatório eterno, ausente de qualquer luz ou esperança. Tornam-se presas fáceis para demônios ou tornam-se, eles próprios, demônios, pois é natural que sua energia espiritual encontre novo propósito durante a caminhada e, se mal guiados, este propósito servirá ao Mal.

“Não devemos esquecer-nos dos mortos. Sempre dai-lhes do que comer e beber, e honrai-vos vossos nomes, pois vossa jornada é árdua, fria e escura; deles vos falta o calor do sangue, da vida, os batimentos do coração, que vos mova com esperança. Tão fácil é para os desgarrados se desviarem ou, temerosos diante da escuridão, tentarem retornar — carregados de escuridão. Tratai-os de lembrá-los devidamente para que tenham os mortos convosco como guardiões e não como demônios.”
Não é permitido aos vivos o direito de esquecerem-se daqueles que partiram, pois embora depostos da carne, parte do que foram ainda existe no Outro Mundo e há de retornar como outra coisa — deus ou demônio. É muito comum honrar os mortos, adorar as almas, de ancestrais ou de entes próximos. Se uma alma partir com pendências que não foram resolvidas em vida, retornará como espírito maligno e como demônio e tornará-se causa de doenças e angústia para a família ou comunidade inteira. Por outro lado, se bem resolvido e bem lembrado entre os vivos, haverá de retornar, se solicitada a sua presença, como espírito tutelar e divindade.

É papel dos Deuses da Morte guiar estas almas de volta ao éter, auxiliá-las no processo de desapego à vida que teve e aos seus assuntos inacabados para que estas encontrem seu novo propósito enquanto parte da Existência, enquanto espírito, enquanto energia espiritual a ser reorganizada em algo novo. Por isso, a designação mais correta para se referir a estas entidades seria “Deuses dos Mortos”, pois estes protegem e orientam os espíritos dos mortos e não são responsáveis pelo fenômeno da morte em si.