A PRIMEIRA MÃE

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Mãe dos Homens, das Bestas e do Verde, Provedora da Vida e Portadora da Morte, Senhora do Escuro e da Fronteira e da Carne, do Barro e do Amor, Sagrado Útero, Leito Eterno.

Antes de nascer, toda criatura é, primeiro, filha da Terra, do Barro, da Lama, do Pó, da Semente Germinada.

A Mãe presenteou as raças do homem com um corpo de carne de barro para abrigar a alma e os protegeu das coisas terríveis e sem nome que havia além de seu leito até que se tornassem maduros e saíssem por conta própria, atraídos pela luz. Mesmo assim, nunca romperam as raízes e a Mãe continuou olhando por seus filhos, amando, protegendo, nutrindo, oferecendo abrigo, com um solo firme e um teto também.

Os homens conheceram muitos deuses e revelaram muitos segredos, mas seu vínculo com a Mãe, o respeito, a segurança, nunca desapareceu. Da mesma forma que todos as raças humanas temem o céu, todas encontram calor, ternura e segurança na terra.

PORTADORA DA MORTE, LEITO ETERNO

É também Portadora da Morte, pois todos os seus filhos murcham, morrem e retornam ao barro e somente seus filhos — homens, bestas e plantas e demais espíritos encarnados. Todos morrem. Antes de sua descendência, não havia morte. Ela inaugura a Morte ao conferir corpo aos espíritos da escuridão desejantes por viver. O barro é Seu, e retorna sempre.

Tudo o que é concreto murcha e retorna ao Espírito.

Guarda em seu íntimo a Morte de tudo o que vive e não vive. A Morte de cada criatura é, também, Tua prole.

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SENHORA DO ESCURO E DA FRONTEIRA

A Terra é dita ser a Senhora do Escuro, das Trevas, Guardiã da Fronteira. Quando presenteia os ancestrais da humanidade com barro, adota espíritos de escuridão. Quando cede seu útero cavernoso a estes filhos, agora encarnados, delimita a fronteira entre a Luz e as Trevas, que existiam tanto além e acima do solo, quanto em suas profundezas. Quando o Mal se infiltra, como vermes da terra, na realidade física, há de passar primeiro pela Terra que é elemento último do caminho traçado pela luz do Princípio.

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O elemento mais próximo do Espírito, o Ar, e mais distante dos homens; há de ser a Terra a mais distante do Espírito, e mais íntima dos homens.

AMOR INCONDICIONAL

Desposada por muitos deuses e homens, mil são seus amantes, não há paredes em seu peito, são os homens filhos da sua união com a Escuridão, com o Maligno, o Demônio selado sob seu corpo, com quem copula eternamente conforme infiltra-se, o Mal, no tecido da Existência.

Ela também gerou o Fogo Impuro dos Homens¹ e depois o devorou, para que não engolisse, seu filho, o Mundo inteiro. Seu corpo envolve o Mundo e, por vezes, sofre com a ira do mar, para que esta ira não recaia sobre seus filhos mortais, formando o firmamento inferior que sela as águas inferiores, junto ao magma borbulhante de seu filho, junto à Escuridão, o Mal, que tenta invadir, mas não consegue atravessar a verdadeira égide que é o amor da Mãe.

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¹ é dito que a Mãe criou o Fogo Impuro ao tentar gerar algo sozinha. Esta prole sempre faminta, e sempre desejando alcançar o céu a que é negado, é o resultado catastrófico da transgressão da Mãe.