“Fiat lux.”
— Gênesis, 1:3
Durante a concepção do Mundo, não havia fronteiras que separassem o Mundo Espiritual do Mundo Material. O Mundo era um eterno potencial criativo, como um grande rascunho — paisagens eram desenhadas e redesenhadas. Não havia ordem. Foi neste período que as primeiras criaturas surgiram como manifestações vivas desta natureza mutável — a exemplo, dragões.
Tudo mudou com a humanidade. Quando estes espíritos da escuridão agarraram-se à terra, desejantes por existir e deixaram o conforto de suas cavernas, atraídos pela luz do dia, para enfrentar as adversidades do Mundo, olharam para si e para a realidade que os cercava e perceberam-se enquanto criaturas pequenas, insignificantes diante das Forças de um mundo caótico e imprevisível.
Em uma busca por compreendê-las, desenvolveram uma relação de submissão em relação a estes poderes. Estes, cientes de si enquanto Forças que existem através de cada elemento físico, mas brutos em sua natureza, adquirem novo propósito, reorganizados em uma forma mais ordenada por estas criaturas que desenvolveram práticas e costumes visando a compreensão para o cultivo de um relacionamento estável com os espíritos, as Forças do Mundo — estes espíritos são as forças por trás de todos os aspectos da natureza indomável.
Os espíritos adquiriram agência, tornaram-se os deuses, que existem em função desta relação com seus seguidores devotos, pois todo espírito existe em função de algo, mesmo que a desconheça. Espaços sagrados, ordenados em contraposição ao restante do Mundo, que era profano, logo, prejudicial e carente de ordem, portanto, sujeito ao Mal, que é a substância da realidade, surgiram e tornaram-se mais comuns conforme a humanidade explorava o Mundo.
Quando surgem os primeiros feiticeiros humanos, visando, como os demais, compreender a realidade, estes buscam ordená-la de forma ativa, manipulando estas forças e tornando a realidade menos caótica.
Comunicação da ideia. É o princípio da feitiçaria e da prática religiosa também. A comunicação parte do ser para o Mundo, que responde. Manipulação da realidade. Pode ocorrer de forma passiva-ativa (prática religiosa), de forma ativa (pneumancia) ou de forma cooperativa.

A Luz, que existe apenas no Mundo Espiritual, mas toca o Mundo Físico, sendo esta o Sol e seu reflexo, a Lua, marca a primeira rutura entre um estado de escuridão anterior à realidade, um estado em que o Mal era o todo, embora não pudesse ser designado desta forma por não haver oposição. Da mesma forma que a Escuridão é o Mal, a Luz é o bem. Diferentemente do Mal, que é parte intrínseca da realidade, o bem é resistência e existe enquanto continuamente praticado.
O Mundo nasceu com a Luz. A Luz quem atraiu a humanidade para fora de suas cavernas. A Luz é o bem, e o bem não é uma força real, mas sim uma prática que, diferentemente do Mal, carece de substância e precisa ser praticada continuamente para se manter. A Luz existe apenas no Mundo Espiritual e se projeta para o Mundo Físico através de um esforço consciente de quem pode fazê-lo para manter esta Luz. Por outro lado, o Mal é parte intrínseca da realidade, o estado natural de todas as coisas, a que todas as coisas retornam sempre. O Mal é inevitável. Mesmo que o Mal apenas envolva o todo, a realidade concreta naturalmente sempre se inclina para o Mal.
O bem precisa ser praticado para se manter; o Mal irá ser praticado, porque ele tem substância real.
Quando a humanidade deixa a escuridão das cavernas e adere uma natureza que lhes permite o dom de escolher entre resistir através do bem ou agir através do Mal, adquirem a capacidade de exercer este esforço consciente para manter a Luz. É este poder de escolha e a natureza do Mundo enquanto ruptura em relação ao todo maligno que limita os demônios ao Mundo Espiritual, mas também é a natureza do Mundo, enquanto parte da realidade, que é maligna, que permite que demônios ajam plenamente no Mundo Físico através da possessão, pois tudo o que existe tem maldade potencial.
O Mal é parte intrínseca da realidade e o estado natural desta. Diferentemente do bem, o Mal tem substância. Todavia, a natureza bruta do Mundo não é maligna, mas sujeita ao maligno.
