O nome “daimon”, no plural, “daimones”, traça sua origem do antigo “daemon”, que significa “divino, de origem divina, filho de deus”. Mais recentemente, adquiriu uma conotação negativa em contextos religiosos e, tal como seu derivado, “demônio”, é utilizado para se referir a tudo aquilo que é impuro e de origem maligna. A primeira concepção do nome vinculava o sujeito ao Divino, enquanto Divino Original, às forças do Bem, mas evolui para algo que, apesar de origem divina, se desvirtua — torna-se, então, resto, sobra, apenas parte daquilo que foi.

É dito que, em um passado muito distante, magos de uma civilização elevada foram capazes de suspender o movimento entrópico da Realidade ao esquartejar e aprisionar o Demônio por muito tempo, tornando menor sua influência sobre o mundo. Não sabiam que estavam, na realidade, meramente sufocando-no. A Queda inevitavelmente veio e os vasos que continham os pedaços do corpo do Mal se estilhaçaram e, desesperados, estas frações do Maligno buscaram os corpos mais vulneráveis para tomar. Foi quando os daimones começaram a nascer.
Esta contextualização é necessária para compreender o espaço social em que estas pessoas estão inseridas. Daimones são pessoas cuja escuridão inerente à humanidade, por motivos diversos, atraiu a atenção de um demônio ainda durante a concepção da criança. Nasce uma entidade limítrofe, um daimon — nem plenamente humano e nem plenamente demônio.
A herança demoníaca de um daimon lhe confere uma aparência desviante que pode manifestar-se através de uma variedade infinita de chifres, números de olhos, apêndices, tons e texturas de pele.
Quando expostos à emoções fortes como raiva e medo suas feições se contorcem em uma forma aterradora — dentes e unhas se alongam, chifres crescem, olhos brilham com voracidade e sua estatura pode aumentar. Durante um breve momento, são possuídos pelo demônio.
Daimones não são temidos por serem o que são, mas pelo significado que seu nascimento carrega. Se um demônio encontrou uma brecha para cruzar para o Mundo Físico é porque o ambiente era propício para esta manifestação, um espaço Profano, logo, sujeito ao Maligno, ao desequilíbrio, entropia e ruína. Daimones são agouros, porquanto, ao nascer, são expostos a rituais que variam conforme a cultura em que estão inseridos — por vezes, podem ser purificados e, quando o Mal dentro de si for grande demais, hão de ser contidos, exilados ou sacrificados. Todavia, a natureza limítrofe de um daimon pode lhe conferir uma posição privilegiada dentro da sociedade — temidos, sim, mas reverenciados por sua conexão com o Espírito. Assim, muitos daimones encontram lugar no sacerdócio como oráculos e magos exorcistas, por exemplo.
É comum que a primeira palavra dita por um daimon durante a infância seja um substantivo que descreva o Mal que tentou possuir seu corpo. Este substantivo pode vir a se tornar seu nome, a menos que os pais da criança, ou o próprio indivíduo quando atingida certa idade, opte pelo contrário.